Do Tejo vai-se para o mundo



Por Romeu Valadares

Revelo em voz sussurrada, quase inaudível: o Tejo é espanhol de nascimento. É verdade. O maior rio da Península Ibérica nasce Tejo e penetra a terra e a alma lusitanas, dividindo Portugal ao meio para assumir sua identidade portuguesa, agora sim, dito em voz alta: Rio Tejo. A rivalidade ficou para trás, e hoje, eu diria, não vai muito além da brincadeira praticada por conta de jogos de futebol.

“Do Tejo vai-se para o mundo”, diria Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Alberto Caeiro, em poesia. E se para fora o rio deságua no Atlântico e ganha mundo, para dentro ele empresta seu nome e rebatiza a região vitivinícola do Ribatejo, que passa, assim, a se chamar Tejo. De promissora, como tem sido adjetivada, para a realidade, está a distância de uma prova com os vinhos da Quinta da Lagoalva. E a promessa se cumpre à margem esquerda desse grande rio.

Descendente do Duque de Palmela, que assume a propriedade em 1846, Diogo Campilho é um bom embaixador de sua terra, que se conserva na mesma família desde então. Mantém-se a tradição de criação do cavalo puro sangue lusitano e, claro, dos ótimos vinhos que a Lagoalva produz em 45 hectares de vinhas. Os vinhos são, antes de mais nada, representantes pioneiros e legítimos da região do Tejo, mas há um sopro de novo mundo na fruta que sobe no aroma. Diogo carrega a experiência adquirida nos anos em que trabalhou como enólogo assistente na Austrália e Nova Zelândia. Sua ambição é dar a seus vinhos a complexidade e austeridade europeia com uma alegria novo mundista.

Provamos seu icônico Syrah, uma das variedades com maior adaptabilidade no mundo do vinho contemporâneo, mas um projeto arrojado nos idos de 1983, o primeiro syrah da região. O vinho recebe as mãos de Diogo e Pedro Pinhão, em 1994, e segue colecionando prêmios. Já foi indicado como melhor vinho do Tejo, um vinho inconteste.

A surpresa do dia veio de uma uva pouco cultivada na região, a Alfrocheiro, mais comum no Dão e no Alentejo. Mostrou-se orgulhosa de sua origem no Tejo, encantou a todos, quase paradoxal: equilíbrio e inquietude, fruta madura, mas vibrante, lembranças de chocolate amargo, um toque de canela e por aí vai... À combinação clássica com cabrito, pediu licença o arroz de pato do Rancho Português, de Ipanema. O futuro chegou. A região do Tejo nos brinda com muitas possibilidades. Explorem e se encantem também!

Fonte: O Fluminense

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